| Saindo
da concha...
Todos
nós, em algumas fases da vida, nos sentimos tão
feridos e tão desacreditados de certos sentimentos
que passamos um longo tempo assim, como se estivéssemos
fechados numa espécie de concha.
Depois
de repetidas tentativas e reincidentes enganos, já
não mais apostamos em novas oportunidades.
Simplesmente escolhemos nos fechar, nos defender e até
nos esconder do que quer que seja que a vida possa tentar
nos oferecer...
Tenho
de admitir que, de vez em quando, não tem outro
jeito! O melhor mesmo é ‘fechar pra balanço’.
Reavaliar os fatos, contabilizar as perdas, reconhecer
os ganhos, ainda que em forma de dolorosos aprendizados.
Felizmente os ganhos sempre existem, por mais difícil
que seja enxergá-los no momento em que estamos
submersos numa sensação de que –
aconteça o que acontecer – já não
vale mais a pena...
Porém,
o tempo é mestre! Sempre me surpreendo e me encanto
com esta capacidade que temos de nos regenerar, de nos
reinventar dentro da concha, seja com lágrimas
e desistências, seja com planejamentos inconscientes,
tentando convencer a nós mesmos de que agora
em nada mais investiremos nosso coração,
mas ainda assim, investindo...
(Infelizmente,
tem muita gente que ainda não se deu conta desta
sua capacidade. Insistem em meramente se trancar em
suas conchas, inertes, acomodados, vestindo a carapuça
de ‘incapazes’ e deixando a vida passar...).
Mas
como a desistência de viver e muito mais a de
amar não são, definitivamente, genuínas
no ser humano, chega o dia em que... depois de longo
tempo introspectos, num processo de auto-superação...
finalmente nosso desejo de explodir tem força
o bastante para descolar as beiradas da concha e revelar
nossa pérola singular, bela, valiosa...
Neste
dia, olhamos para o Sol como se há muito ele
não estivesse ali. Sentimos nosso coração
bater como se tivesse passado longo tempo desativado.
Perdemos a respiração por alguns segundos,
para depois retomá-la num suspiro de quem acaba
de nascer.
Revivescemos,
nos apaixonamos... feito adolescentes que desperta para
um primeiro amor. Porque amor é sempre primeiro.
Deixo
aqui o depoimento do homem (!) que me inspirou para
este artigo, descrevendo-me seus sentimentos e classificando
este seu momento como ‘saindo da concha’...
“...Caramba!
Vale a pena. É bom estar assim, é bom
frio na barriga, é bom ver arco-íris,
é bom pedalar mais rápido, é bom
estar nas nuvens... Se ela vai se assustar com tanta
confissão? Sabe, posso desaparecer no próximo
minuto, como as pessoas que estavam indo pro trabalho
hoje de manhã no metrô de Londres, ou quando
quase morri nas montanhas do Nepal ou nas águas
contaminadas da Índia... Então, que fique
assustada; que saiba o impacto que está causando!
O que interessa agora (egoisticamente pensando) é
que não existe nada que me impeça, nenhuma
situação embaraçosa, nenhum caso
mal resolvido, nadinha mesmo... que me impeça
de sentir tudo o que está acontecendo, mesmo
que termine, ou melhor, "não" termine
em pizza...”
É
isso... a coragem de se atirar ao seu próprio
coração, ‘egoisticamente pensando’,
e simplesmente viver intensamente seus sentimentos...
Para terminar descobrindo, enfim, que amar e ser amado
são contingências de escolhas pessoais,
suas, sempre suas.
Que
nada te impeça. Nem seus pensamentos, nem seus
medos, nem seus mecanismos de defesa... E então,
ainda que não seja hoje, ainda que não
seja agora, mas que você se permita – quando
se sentir pronto – sair da concha e ver arco-íris...
Rosana Braga
Jornalista, Escritora e Consultora em relacionamentos
afetivos.
rosanabraga@rosanabraga.com.br
www.rosanabraga.com.br
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