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Fabiano Accorsi
"Acho engraçado quando alguém chega a meu camarim e diz: 'Que
coragem a sua de cantar Eu gosto de homens e de mulheres!'. Poxa,
'coragem' é uma expressão muito antiquada nessa área"
Na semana passada, a cantora Ana Carolina deu uma entrevista a
VEJA que contém uma confissão pessoal e ao mesmo tempo é o
reflexo de uma mudança e tanto na forma como os jovens
brasileiros encaram a sexualidade. Ana Carolina falou sem meias
palavras sobre suas preferências. "Sou bissexual", disse ela.
"Acho natural gostar de homens e mulheres." O que chama atenção
é que ela trata do assunto com leveza. E, é importante frisar,
sem ter a mínima intenção de fazer proselitismo em favor de
causas políticas. "Sou contra essa postura de levantar bandeiras
para defender o homossexualismo, pois fica parecendo que ser gay
é uma doença", diz. Ana Carolina é hoje uma das artistas que
mais vendem discos no Brasil. Desde 1999 ela lançou quatro CDs,
que ultrapassaram a marca de 1,5 milhão de cópias vendidas.
Somente neste ano foram 800 000 unidades, mais da metade de toda
a carreira. Seu mais recente lançamento, Ana & Jorge, feito em
parceria com o cantor carioca Seu Jorge, atingiu a vendagem de
125 000 discos em apenas duas semanas. Não é exagero dizer que
2005 foi seu ano de ouro – e a naturalidade com que expõe sua
sexualidade só reforçou seu carisma.
Nascida em Juiz de Fora, Ana Carolina vem de uma família de
músicos. Seu avô cantava em igreja e a avó era artista de rádio.
"Dizem, aliás, que ela teve um affair com o forrozeiro Luiz
Gonzaga – mas não me pergunte se foi antes ou depois de conhecer
meu avô", conta. Ana Carolina é autodidata: aprendeu a tocar
violão, guitarra e pandeiro sozinha. Hoje em dia, diz que domina
a matemática da música", embora ainda não saiba ler partituras.
A cantora lembra que na adolescência, ao mesmo tempo em que dava
os primeiros passos musicais, já demonstrava interesse por ambos
os sexos. "Namorei quatro garotos, depois uma menina, em seguida
outro garoto e mais tarde uma menina outra vez", diz. Aos 16
anos, ela tomou a decisão de contar para a mãe que se sentia
diferente das amigas. "Fiz isso de supetão. Estávamos falando de
um assunto qualquer e eu soltei a confissão, como se não fosse
nada. 'Mãe, eu gosto de homens e de mulheres. Dá para a senhora
me passar aquele negócio ali, por favor?'" A opção da filha foi
respeitada, ainda que mais tarde ela tenha enfrentado cobranças.
"Tive de ser mais dura com minha mãe, para reafirmar minha
condição. Mas aí ela aceitou de vez, e hoje nos damos bem",
conta.
Peter Iliccev/O Dia/AE
"Sempre apreciei as intérpretes que botam tudo para fora ao
cantar, como se fosse o último dia de sua vida. Cantar alto me
deixa excitada"
Ana Carolina começou da mesma forma que tantos artistas
anônimos: cantava em barzinhos. Seu repertório tinha canções de
Edu Lobo e Chico Buarque, além de músicas próprias. "O barzinho
é uma escola maravilhosa, desde que você não cante apenas
sucessos que tocam na rádio, imitando as versões originais.
Desse jeito, você nunca encontra a própria personalidade." Ana
Carolina ainda era desconhecida quando encontrou uma figura que
marcaria sua carreira: a cantora Cássia Eller. "Quando Cássia
foi a um show meu, eu me senti como se tivesse ganho a Cruz de
Malta", diz. As duas ficaram amigas e, depois da morte de
Cássia, Ana Carolina herdou parte de seus fãs. Gustavo Stephan/Ag.
O Globo
Ana Carolina descobriu que era bissexual na adolescência. Quando
tinha 16 anos, ela decidiu contar à mãe. "Gosto de homens e de
mulheres. Dá para pegar aquele negócio ali, por favor?" A
cantora, no entanto, não descarta a idéia de um dia se apaixonar
por um homem. "Se isso acontecer, caso de véu e de grinalda, e
ninguém irá me impedir."
O forte da cantora são as baladas – mas ela faz bom uso de seu
vozeirão para lhes dar um toque mais dramático do que intimista.
"Cantar alto me deixa excitada", diz ela. Além de compor, Ana
Carolina tem gravado canções de medalhões e novos nomes da MPB.
Ela tem uma visão realista do gênero em que atua. "Não acredito
que surgirão na música brasileira movimentos musicais tão
inovadores quanto a bossa nova e o tropicalismo. Mas isso não é
o fim do mundo. Vamos fazer música de qualidade, nem que não
seja uma revolução", diz Os shows de Ana Carolina têm público
eclético. Há fãs lésbicas que bradam palavras de ordem enquanto
ela entoa baladas românticas, e também casais heterossexuais.
Quando a cantora apresenta sua versão bossa nova de Eu Gosto É
de Mulher, sucesso do grupo de rock paulistano Ultraje a Rigor
da década de 80, a platéia sempre se entusiasma. "É uma canção
machista, misógina até, mas sempre divertida." Outro ponto alto
se dá quando ela interpreta uma música que estará em seu próximo
disco, Eu Gosto de Homens e de Mulheres.
De vez em quando alguém chega a meu camarim e diz: 'Que coragem
cantar essa música!'. Sempre recebo bem esse tipo de elogio, mas
acho que aí está a diferença da minha visão. Acho 'coragem' uma
expressão muito antiquada nessa área. Nossas inclinações sexuais
não deveriam causar medo."
Atitudes como a de Ana Carolina atraem dois tipos de oposição.
Sua maneira de falar de sexo parece ultrajante para os
conservadores, mas também incomoda muitos homossexuais
aguerridos, que gostariam de vê-la empunhando a bandeira do
arco-íris. Ana Carolina pertence a uma era pós-engajamento.
Parte da militância não se conforma com suas negativas a se
apresentar na Parada Gay paulistana ou em casas noturnas
voltadas a esse público. "Acho que passeatas e discursos no
estilo 'nós, os homossexuais' só alimentam uma visão
estereotipada", diz. Inspirada por autoras como a americana
Camille Paglia, que admira por suas polêmicas no âmbito do
feminismo e da cultura gay ("O que mais me incomodou num assalto
por que passei foi levarem por acaso um livro dela", brinca), a
cantora não quer ser aprisionada num nicho.
"Posso até estar saindo com uma mulher, mas se eu me apaixonar
por um homem e decidir casar com ele na igreja, de véu e
grinalda, ninguém vai impedir", diz.
A comediante Ellen DeGeneres: sem problemas em admitir que é
gay.
As atitudes de aceitação ou rejeição social da homossexualidade
variaram ao longo da história. Na Grécia e na Roma antigas, era
um comportamento socialmente aceitável, especialmente quando
envolvia um homem mais velho e um adolescente. A religião
judaico-cristã, porém, ergueu pesadas interdições São Paulo, na
epístola aos Romanos, diz que os homens que "se queimam de
paixão" uns pelos outros praticam "relações contra a natureza" e
são, portanto, vergonhosos. A hipocrisia sempre deu um jeito de
contornar as proibições. E o privilégio econômico também se
traduzia em vantagens no terreno sexual: o poeta inglês Lord
Byron, um ícone do romantismo gótico que gostava tanto de homens
quanto de mulheres, observou que todas as perversões que eram
condenadas nas classes médias eram perdoadas aos que, como ele,
pertenciam à aristocracia. Mesmo assim, esperava-se que os ricos
fossem discretos na prática de seus comportamentos "desviantes".
O escritor e dândi irlandês Oscar Wilde foi julgado como
homossexual porque seu caso com lorde Alfred Douglas se tornara
tão conspícuo quanto o extravagante casaco verde-garrafa que ele
adorava vestir. Condenado a dois anos de prisão e trabalhos
forçados, Wilde se tornou um ícone da causa gay. A punição da
homossexualidade como crime ainda vigoraria no século XX,
especialmente em contextos autoritários como a Alemanha nazista
e a União Soviética. A tendência, porém, foi o comportamento ser
tirado do âmbito judicial para ser lançado no terreno médico –
ou seja, a homossexualidade passou a ser vista como doença. Foi
só nos anos 70, por exemplo, que o DSM – uma espécie de listão"
de distúrbios psíquicos, utilizado por psiquiatras no mundo todo
– excluiu a homossexualidade de seu catálogo de distúrbios
psicológicos.
HOMOSSEXUALISMO NA ARTE
O deus Júpiter se disfarça em mulher para seduzir a ninfa
Calisto (foto), no quadro do pintor flamengo Rubens (1577-1640);
o poeta Lord Byron fazia apologia da bissexualidade e dizia que
o que era aceitável para a aristocracia nem sempre valia para as
classes mais baixas; as esculturas romanas exaltavam a beleza do
corpo masculino
A última década viu as mudanças culturais em relação à
sexualidade se acelerarem de maneira marcante. Isso é
perceptível na televisão – a maior caixa de ressonância do
pensamento e dos hábitos contemporâneos. A comediante americana
Ellen DeGeneres assumiu sua homossexualidade em público em 1997,
no auge do sucesso de uma série que estrelava, e, desde então, a
TV americana vê crescer a cada ano o número de produções que
abordam o universo gay. Há séries leves como Will & Grace e
apimentadas como The L Word, sobre um grupo de lésbicas
glamourosas de Los Angeles. No Brasil também há mais liberdade.
Novelas como Mulheres Apaixonadas e Senhora do Destino trataram
recentemente do lesbianismo sem causar rejeição. Nessa última,
Aguinaldo Silva levou a trama até onde nenhum noveleiro havia
ousado: o par formado pelas atrizes Mylla Christie e Bárbara
Borges chegou a dividir a mesma cama e a adotar uma criança.
Retratar a homossexualidade, contudo, é diferente de assumi-la –
mais ainda da maneira como Ana Carolina faz. O preconceito ainda
é uma realidade, e as dificuldades para "sair do armário"
continuam passando pelos mesmos pontos sensíveis: o medo do
impacto junto à família e no trabalho. "Profissionais de
qualquer tipo, mas principalmente os que lidam com o grande
público, tendem a adiar a decisão de assumir para não se
prejudicarem", diz Sônia Alves, diretora do instituto DataGLS,
que pesquisa o público gay. "Ainda não é fácil se assumir. Se
fosse realmente fácil, teríamos um monte de atrizes e cantoras
se revelando homossexuais", diz o escritor e militante João
Silvério Trevisan.
Para o psicólogo Ritch Savin-Williams, professor da Universidade
Cornell, nos Estados Unidos, já está em andamento a revolução
que falta – aquela que vai substituir o escândalo em torno das
diferenças sexuais por uma saudável naturalidade ou até mesmo
pela indiferença. Savin-Williams, que pesquisa há mais de vinte
anos as implicações sociais do comportamento gay, acaba de
publicar o livro The New Gay Teenager (O Novo Adolescente Gay),
no qual defende a tese de que os jovens contemporâneos estão
"dando um fim à era da identidade sexual". Em suas palavras, uma
parcela considerável dos adolescentes de hoje em dia "não se
sente embaraçada pela ambigüidade sexual não a considera
desviante e a percebe por todos os lados". Segundo o
pesquisador, o uso de categorias sexuais para separar, isolar ou
discriminar estaria diminuindo de maneira acelerada. "Para
muitos jovens, ser rotulado como gay já não importa muito. Os
adolescentes cada vez mais redefinem, reinterpretam e renegociam
sua sexualidade de tal forma que possuir uma identidade gay,
lésbica ou bissexual praticamente não tem significado", disse
ele a VEJA.
Divulgação - Divulgação/TV Globo
DA VIDA PARA A FICÇÃO
O seriado The L Word (à esq.), exibido pelo canal de TV paga
Warner, fala do cotidiano de um grupo de lésbicas. À direita,
Jenifer e Eleonora, o casal gay da novela Senhora do Destino, da
Rede Globo: a audiência aprovou
Pesquisas recentes têm revelado mudanças importantes na maneira
como os jovens vivenciam a própria sexualidade. Um levantamento
recém-concluído com 10.260 homossexuais brasileiros mostra que
hoje eles se assumem mais e mais cedo. Realizado por meio da
internet pelo DataGLS, o censo mostra que 73% dos gays
entrevistados se assumiram antes dos 24 anos. Ritch
Savin-Williams apresenta dados ainda mais espantosos sobre os
Estados Unidos. Ele revisou mais de uma dezena de estudos que
demonstram que a idade média em que as pessoas se dão conta de
desejos homossexuais (ou os assumem para si mesmas) caiu nas
últimas décadas. Ela era de 14 anos para meninos e 17 anos para
meninas, na década de 60. Nos anos 90, passou a ser de apenas 10
anos para garotos e 12 para garotas.
Neste ano, a MTV brasileira patrocinou uma pesquisa sobre o
universo jovem que também traz informações curiosas. Dos 2.359
moradores de sete capitais brasileiras com idade entre 15 e 30
anos ouvidos durante a enquete, 40% disseram se incomodar com a
visão de dois homens se beijando. Caso sejam duas mulheres, o
índice é de 31%. São números consideráveis, mas não expressam
uma maioria. A abertura para experimentações tornou-se um traço
marcante do comportamento jovem – e aí se incluem tanto a
experimentação heterossexual, como no hábito de ficar com
diversas pessoas durante uma balada, quanto a homossexual. Uma
das teses levantadas pela pesquisa da MTV é a de que existe um
aumento da tolerância, mesmo que não da aceitação, relativamente
aos gays. Outros entrevistados chegaram a cogitar até mesmo da
existência de uma "moda" em torno do comportamento gay ou, ao
menos, ambíguo "Antigamente você podia até ter vontade, mas não
chegava a fazer. O que acontece agora é que há muita abertura
para experiências", disse uma jovem de classe média de Salvador.
Transformações marcantes seriam visíveis entre as meninas.
Garotas de 13 a 17 anos, por exemplo, têm "testado" com
freqüência o beijo entre amigas. Como observam os psicólogos –
inclusive para tranqüilizar pais preocupados –, essa atitude não
significa que as meninas sejam ou venham a ser necessariamente
lésbicas. Beijar uma amiga é mais um indício de liberdade, de
ausência de preconceitos e do desejo de não se deixar capturar
por nenhum rótulo. "As mudanças em direção a uma maior aceitação
da diversidade estão em andamento. Não há volta para isso", diz
Savin-Williams. Segundo ele, as atitudes negativas em relação à
homossexualidade ainda terão eco por bastante tempo, mas são
contrabalançadas pela percepção de que é cada vez mais custoso e
fútil manter de pé velhas barreiras. Ana Carolina é ícone de uma
geração que está deixando para trás o peso de um preconceito
ancestral.
Obviamente, constatar isso, e compreender essa nova visão
naturalizada da sexualidade, não equivale a incentivar nem muito
menos a convidar todos a uma vida gay. Como diria o intelectual
brasileiro Roberto Campos, parodiando os lordes ingleses: "Agora
que tornamos a homossexualidade aceitável, não precisamos dar o
último passo e torná-la obrigatória".
FONTE: REVISTA VEJA. |