No
século XVI, Felipa de Souza foi denunciada ao Tribunal
do Santo Ofício, na Bahia, por “práticas
diabólicas”. Entre essas práticas: trocar
abraços e beijos com sua vizinha por cima do muro
e fazer amor com meia dúzia de outras mulheres. Sua
punição foi severa: a humilhação
e o açoite públicos seguidos pelo exílio.
No começo do século XXI, podemos conferir
que muita coisa mudou e para melhor. As mulheres lésbicas
não são açoitadas em praça pública
e não podem ser legalmente punidas por suas escolhas
afetivas/sexuais. No entanto, o preconceito e a conseqüente
discriminação seguem impedindo o exercício
de liberdades fundamentais e entristecendo a vida das mulheres
que amam mulheres.
Transformar esta realidade é tarefa de todas e todos
que defendem que os direitos humanos sem exceções
são a base para uma sociedade mais solidária
e pluralista. Uma sociedade que almeje os bem-estares econômico,
social, cultural e, por que não, sexual.
O Jornal da Rede entrevistou sete ativistas do movimento
lésbico brasileiro. São elas: Íris
de Fátima da Silva (Amhor - Articulação
e Movimento Homossexual do Recife); Jane Pantel (GLB - Grupo
Lésbico da Bahia); Marisa Fernandes (CFL - Coletivo
de Feministas Lésbicas, São Paulo); Míriam
Martinho (Um Outro Olhar, São Paulo); Mirian Weber
(Setorial de Lésbicas e Gays do PT de Porto Alegre);
Neusa das Dores Pereira (Colerj - Coletivo de Lésbicas
do Rio de Janeiro) e Rosangela Castro (Grupo Felipa de Sousa,
Rio de Janeiro).
Os direitos das lésbicas são direitos
das mulheres
A frase pode soar como uma obviedade mas, como tudo o que
é óbvio, seu significado nem sempre é
percebido. Na opinião de todas as entrevistadas,
o movimento feminista – maior defensor dos direitos
das mulheres e imenso celeiro de proposições
a favor da cidadania e liberdade femininas – tem sido
até hoje tímido em relação aos
direitos sexuais das lésbicas. Perguntadas sobre
o porquê disto, as ativistas lésbicas –
todas feministas – apontaram, como razão número
um, o medo das feministas de serem “tachadas”
de lésbicas. Mirian Weber diz o seguinte: “Eu
creio que muitas feministas têm dificuldade em assumir
a sua homossexualidade, mas creio também que, independentemente
de as feministas serem lésbicas ou não, são
mulheres e, portanto, precisam pôr em suas agendas
de luta a discussão da cidadania das lésbicas”.
Íris de Fátima da Silva diz observar uma “rejeição”,
mesmo que velada, às reivindicações
das lésbicas. Ela cita, por exemplo, a falta de artigos
sobre direitos sexuais e jurídicos das lésbicas
nas publicações feministas. Marisa Fernandes
vai no mesmo tom: “eu abro as publicações
para mulheres e raramente aparecem informações
para as lésbicas. É como se não existissem,
ou fossem tão poucas que não valesse a pena
falar sobre e para elas”.
As críticas não param por aí. Neusa
das Dores Pereira afirma ser comum as feministas convidarem
os grupos lésbicos para apoiar e divulgar ações
de interesse das mulheres, mas o contrário nunca
ocorre: “a gente cansa de chamar as feministas para
mesas-redondas e para encontros e elas simplesmente não
aparecem”. Neusa estende a crítica aos grupos
de mulheres negras, que também raramente incluem
a luta pela cidadania lésbica em suas agendas.
Por outro lado, para a maioria das entrevistadas, a relação
entre feministas e movimento lésbico começa
a dar sinais de uma produtiva aproximação,
com alguns projetos em parceria. Míriam Martinho
diz o seguinte: “percebemos a questão lésbica
como uma questão intrínseca à luta
da mulher. As questões de gênero – relacionadas
à melhoria da qualidade de vida das mulheres, à
luta contra todas as discriminações etc. –
são uma pauta comum para feministas e lésbicas”.
No que toca aos grupos feministas, começa a “cair
a ficha” de que os direitos reivindicados pelas lésbicas
são parte fundamental dos direitos humanos de todas
as mulheres. Isso decorre também do fato de as mulheres
lésbicas estarem sendo mais assertivas quanto à
ocupação de espaços com temas prioritários
de sua agenda política. O número de grupos
não pára de crescer e a novidade é
que esses grupos estão deixando o guarda-chuva das
organizações gays, em busca da autonomia e
de suas especificidades.
Lésbicas e gays: uma relação
delicada
Algumas das entrevistadas chamam a atenção
de que os homens gays não estão imunes ao
machismo. Ao contrário do senso comum, não
há nenhuma relação mecânica entre
heterossexualidade e machismo. Mirian Weber soluciona a
equação: “homens são homens;
independentemente de sua identidade sexual, todos foram
criados em uma cultura patriarcal/machista”. Marisa
Fernandes também cita o poder da visibilidade dos
gays e a falta de uma compreensão das relações
de gênero para a maioria deles. Rosangela Castro comenta
a dificuldade dos homens gays, por exemplo, em escrever
nas suas convocatórias: “companheiros e companheiras”.
“Eles simplesmente esquecem”, diz Rosangela.
Neusa das Dores Pereira sublinha que a supremacia econômica
dos gays em relação às lésbicas
nada mais é do que a supremacia econômica dos
homens em relação às mulheres. Basta
observar as Paradas GLBT (de gays, lésbicas, bissexuais
e transgêneros) em São Paulo. Apesar de o número
de lésbicas estar crescendo a cada ano, o desfile
escancara, com toda a crueza, o poderio econômico
dos gays, traduzido nos grandes caminhões que carregam
sistemas de som maiores ainda.
No entanto, todas concordam que a relação
entre lésbicas e gays deve ser carinhosa e politicamente
trabalhada, uma vez que aquilo que os une – a orientação
sexual – é profundamente forte. Lésbicas
e gays têm caminhos em comum no tocante à criação
e à expansão dos direitos jurídicos
e, sem dúvida, no trabalho de transformação
de mentalidades e alargamento da tolerância na sociedade
brasileira.
Saúde das mulheres lésbicas
Ao serem perguntadas sobre as demandas específicas
das lésbicas, todas as entrevistadas foram unânimes
em citar a falta de informações e de políticas
públicas de prevenção de doenças
sexualmente transmissíveis (DSTs) entre mulheres
que fazem sexo com mulheres.
O constrangimento em consultar um/a ginecologista é
bem conhecido pelas lésbicas. Há um medo em
ser franca e receber uma rejeição do outro
lado. Rosangela Castro tem um episódio pessoal para
contar: “uma vez fui muito maltratada por uma ginecologista.
Quando eu disse que tinha como companheira uma mulher, ela
fechou a cara e o diálogo. Com uma agravante: essa
médica era lésbica”. Essa história
nos chama a atenção para o poder do preconceito
– incluindo o autopreconceito – e para a necessidade
de capacitar profissionais de saúde para atender
as mulheres lésbicas com qualidade e respeito. Íris
de Fátima da Silva também insiste na tecla
da capacitação: “os profissionais de
saúde precisam se sensibilizar para o fato de que
mulheres lésbicas não têm a mesma prática
sexual das heterossexuais e vice-versa. Há particularidades
que precisam ser levadas em conta”.
Somado a isso, ou mesmo em parte por conseqüência
da dificuldade da mulher lésbica em expor sua preferência
sexual, existe o mito, alimentado pelas lésbicas,
de que não fazer sexo com homens as torna quase invulneráveis
às DSTs e aos cânceres de mama e de útero.
Rosangela Castro – que desenvolve o trabalho “Espelho
de Mim”, que compreende a conscientização
e a entrega de um kit para lésbicas (que inclui um
simpático cortador de unha) – diz: “a
idéia da pouca vulnerabilidade às DSTs está
na cabeça da maioria das lésbicas, independentemente
de sua situação sociocultural”. Ela
vai mais longe: “na verdade, são as mulheres
de classe média as que mais resistem à necessidade
do sexo seguro, talvez por não quererem admitir que
não sabem. Já as lésbicas de baixa
renda se interessam mais pelas informações”.
Todos os grupos entrevistados mantêm, em suas agendas
de trabalho, ações de conscientização
das lésbicas para a prevenção das DSTs
e para os cânceres de mama e de útero. E todas
as ativistas vêem esta questão como parte dos
direitos lésbicos a serem contemplados – ou
seja, apontam a necessidade de o Ministério da Saúde
trabalhar a saúde da lésbica na sua especificidade.
A luta pelos direitos
Míriam Martinho tenta resumir a questão da
seguinte maneira: “o que queremos é o fim da
desigualdade de direitos entre pessoas hetero e homo. Queremos
igualdade de direitos e oportunidades, sem que precisemos
esconder nossa orientação sexual”.
Na área dos direitos, não podemos negar que
a situação está melhorando! Já
existem leis municipais e estaduais contra a discriminação
sexual e os juízes, em número cada vez maior,
têm dado ganho de causa para viúvas e viúvos
homossexuais. Mas ainda faltam instrumentos que sejam nacionais
e contundentes. E também, no dizer de Neusa das Dores
Pereira: “falta uma lei que obrigue as leis a serem
visíveis. Pouca gente sabe, por exemplo, que na cidade
do Rio de Janeiro, desde 1996, todo mundo pode beijar na
boca as parceiras e parceiros do mesmo sexo. A Lei 2.475/96
também dá igualdade de direitos (os mesmos
que têm os heteros) para funcionários públicos
que tenham parceiros do mesmo sexo. É uma grande
vitória. Mas ninguém fica sabendo”.
Continua “esquecido” em uma gaveta do Congresso
Nacional o Projeto de Parceria Civil Registrada, apresentado
originalmente pela ex-deputada Marta Suplicy (PT-SP) e que
já sofreu uma série de reduções
de direitos para tornar mais palatável a sua tramitação
na Câmara dos Deputados. Todas as entrevistadas criticaram
o teor total do projeto por ficar muito aquém dos
direitos reivindicados, mas foram unânimes para a
oportunidade de que ele seja aprovado. No campo das leis,
os trâmites são particularmente lentos; no
entanto, as leis são verdadeiramente necessárias.
Ao lado disso, tem existido uma maior sensibilização
das organizações governamentais para as demandas
lésbicas. Marisa Fernandes cita a participação
das lésbicas na revisão, em curso, do Programa
Nacional de Direitos Humanos (Mais informações
sobre o PNDH II na pág. 33). Também digno
de nota é o Programa de Combate à Discriminação
contra Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros,
da Prefeitura de Camaragibe/PE. (Ver box).
Se antes, em quase todos os documentos de direitos humanos,
estavam bem contemplados negros/as, mulheres, crianças
e adolescentes, idosos e pessoas com necessidades especiais,
agora começamos a notar, ao menos, a menção
de lésbicas e gays. Isso é muito importante,
pois aos poucos outras organizações progressistas
e sociais não “esquecerão” mais
de citar a liberdade sexual como um direito de cidadania.
Ou seja, esses direitos sairão da vaga categoria
de “outros”, ou das chamadas “formas correlatas”,
como a ONU (Organização das Nações
Unidas) prefere denominar.
Se você não existe, você não tem
direitos
A visibilidade das lésbicas, o famoso ato de “sair
do armário” e assumir socialmente a preferência
sexual por mulheres, é uma espécie de ponto
de honra para os grupos lésbicos entrevistados. A
síntese da visibilidade é a seguinte: “se
a gente não existe, a gente não tem demandas”.
Com exceção de Jane Pantel, que enxerga a
visibilidade lésbica como algo importante, mas não
fundamental – “nós consideramos que assumir
publicamente ou não a homossexualidade é um
direito inalienável de cada uma; o que a gente preza
é a qualidade das nossas ações em favor
da mulher lésbica” –, todas as outras
entrevistadas apontaram a visibilidade como o grande passo
na conquista de direitos e respeito. Marisa Fernandes, por
exemplo, defende a visibilidade como um ganho não
apenas político, mas pessoal: “muitas lésbicas
não se tornam visíveis porque acreditam que,
se o fizerem, perderão o amor dos familiares ou o
emprego.
Isso até vai acontecer, mas é em um determinado
momento. Depois a família voltará a amá-la
e ela vai arranjar um emprego no qual não tenha que
mentir. Ou seja, a visibilidade compensa infinitamente mais
do que uma vida clandestina”. Mirian Weber acrescenta
que a dificuldade de se tornar visível vem da autocensura,
de um preconceito interno: “mas, na medida em que
a gente se coloca verdadeiramente, a gente vai ganhando
tranqüilidade e abrindo novas parcerias e caminhos”.
Íris de Fátima da Silva chama a atenção
para o fato de as famílias serem o primeiro e torturante
entrave para a visibilidade lésbica: “muitas
lésbicas são agredidas pelos familiares, que
não as aceitam de jeito nenhum; muitas caem na prostituição
ou se vêem obrigadas a casar, serem mães, tudo
para provar para as famílias que são ‘normais’,
que estão dentro dos papéis esperados”.
E acrescenta: “qualquer trabalho contra o preconceito
às lésbicas tem que incluir um trabalho, de
fôlego, com as famílias. E, claro, com a sociedade
em geral”.
Frente ampla contra todos os preconceitos
As seis horas de fitas gravadas com as entrevistadas deixaram
claro a seriedade dos trabalhos dos grupos de mulheres lésbicas
e a incrível sensibilidade para a compreensão
de que a luta não é contra um ou outro preconceito.
A luta é contra todos os preconceitos. Não
é possível admitir falas que sussurram “eu
não tenho preconceito contra negro, mas contra gays
e lésbicas...”. Não é possível
defender direitos humanos com exceções. Assim
como não é exeqüível discursar
sobre “um outro mundo possível”, sem
incluir nesse outro mundo o direito das mulheres que amam
mulheres e dos homens que amam homens. E também os
direitos dos bissexuais e dos transgêneros. As escolhas
humanas, quando feitas pelo coração, são
maiores do que todos os fundamentalismos, partidarismos
e crenças. Por último, a parte que mais nos
toca: cabe ao movimento feminista utilizar sua natural criatividade
e sua vocação para a ousadia em prol dos direitos
das lésbicas, que nada mais são do que os
direitos humanos das mulheres.
Fernanda
Pompeu, especial para o Jornal da Rede.