O Amor que não
ousa se beijar
Já em 1895, Oscar
Wilde se referia ao amor que não ousa dizer seu
nome.
Novela de ficção no Brasil significa costume.
Veja “Dancing Days”: implantou a discoteca.
Na novela “América”, foi gravado o beijo entre
os personagens Júnior e Zeca, mas foi censurado
pela direção da Globo.
Glória Peres já comprovou que é comprometida com
as causas sociais – vide Crianças Desaparecidas.
Fomos usados como um marketing falso, uma
propaganda falsa? Pessoalmente, nós nos sentimos
enganados. Queríamos ver o beijo. Interrompemos
nossos compromissos para assistir uma coisa
anunciada, mas que não aconteceu ,que não foi
entregue.Embora tenha sido bonita a forma como a
novela lidou com o caso, retratando a
dificuldade de se assumir homossexual, a mãe
angustiada, sentimos como estivéssemos fazendo
sexo mais seguro, sem colocar a camisinha com
atriz principal.
No último capítulo da novela vimos três beijos
ardentes heterossexistas. Por que não poderia
ser um beijo gay? No México já teve. Por que
ainda está heteronormativividade ainda impera?
A Constituição Federal não disse que todos são
iguais, e a Declaração Universal de Direitos
Humanos, de 1948, também?
Será que o beijo destruiria a família? De que
família estamos falando afinal? A de Tomas de
Aquino? A de Santo Agostinho? A de São Paulo,
que também ensinou que mulher não poderia falar
em público? Será que Glória Peres falou demais?
Foi a regra do mercado? Foi uma pressão
conservadora que reflete o que a sociedade ainda
pensa sobre nós GLBT?
A UNESCO pesquisou e provou cientificamente na
sua publicação Juventude e Sexualidade (2004),
que 27% dos 16.422 estudantes brasileiros
entrevistados não gostariam de ter um colega gay
na sala de aula, 35% dos seus pais também não
gostariam e 41% dos professores não se sentem
aptos a lidar com a questão da homossexualidade.
E nós militantes velhos de guerra vamos fazer um
beijaço no Jardim Botânico, no PROJAC, no EBGLT?
Vamos acionar os PROCONs estaduais? Afinal, será
que não houve propaganda enganosa? Ou temos que
ter paciência? Na Idade Média já fomos queimados
na fogueira. Tivemos um período na história em
que fomos tratados como criminosos. Apenas na
última década é que Chile e Equador
descriminalizaram a homossexualidade. Enquanto
isso, Nicarágua e mais 83 países ainda
criminalizam. A própria Organização Mundial da
Saúde nos tratou como doentes através do artigo
302.0 da Classificação Internacional de Doenças,
que só foi retirado em 17 de maio de 1993.
Vivemos em uma cultura homofóbica que não
respeita os sentimentos, que ainda toma decisões
pela regra do mercado, que diz que o cliente
sempre tem razão. 53% dos telespectadores da
Globo que se manifestaram em enquête ainda não
aceitam os relacionamentos GLBT. Segundo o
relatório Kinsey, somos 10% da população. Será
que 17 milhões de brasileiros têm que continuar
vivendo no gueto, apenas para atender os
interesses de quem?
Será que a Belíssima vai ter um belíssimo
respeito aos direitos humanos.
Em 1995, Marta Suplicy propôs no Congresso
Nacional o projeto de lei da Parceria Civil
Registrada entre pessoas do mesmo sexo, que está
lá, estacionado e mofando há dez anos, negociado
com a parte conservadora daquele Congresso que
ainda insiste que GLBT não são cidadãos
completos.
Temos ainda 35 direitos que nos são negados,
quanto comparados aos heterossexuais (Revista
Superinteressante, Edição 202 – julho de 2004).
Desde a publicação desse artigo, conquistamos o
direito de imigração de parceiros estrangeiros
de casais homossexuais binacionais e o
solidificamos o reconhecimento pelo INSS de
nossas uniões.
Vamos ao beijaço no Congresso Nacional durante o
EBGLT? Vamos ao Projac. Vamos ao Jardim
Botânico? Vamos beijar em todos os lugares.
Afinal, amar o próximo é o mandamento.
Toni Reis e David Harrad
Presidente do Grupo Dignidade e Secretário Geral
da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e
Transgêneros
Curitiba - Paraná 04 de novembro de 2005
Fonte:
Recebido por e-mail em 07/11/2005
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